O autor mutante que cunhou o termo "astronauta"

27.07.2019

Adorei saber que J.-H. Rosny chamava os humanos de "animais verticais", que podem ser riscados do mapa

 

J.-H. Rosny aîné viveu e criou sua espantosa obra literária (mais de 150 livros) sob tons crepusculares. Embora isso signifique dizer que as cores do entardecer tingiram seus livros e sua vida, revela também que ele transitou dos fulgores do pôr do sol direto para a noite sem estrelas do esquecimento. De fato, um jogo de claro e escuro sempre brincou de gato e rato com a vida e a obra desse misterioso, quase inclassificável, escritor belga que, após ter flertado com Londres, instalou-se de vez em Paris. Rosny foi uma espécie de mutante, circulando entre a fama e o anonimato e repartindo-se, na temática de seus livros, entre o passado imemorial e um futuro longínquo demais para ser medido em séculos.

 

J.-H. Rosny urdiu um teatro de sombras que ao mesmo tempo ilumina e obscurece seu legado literário. Talvez por isso, sua legião de fãs seja bem menor do que a dos admiradores de Jules Verne e H.G. Wells – só que é muito mais fanática. Aliás, o território pantanoso no qual Rosny circulou reforça seus laços com os dois ícones da ficção científica: ele nasceu entre um e outro gigante literário. Jules Verne veio ao mundo em 1828 e morreu em 1905, enquanto H.G. Wells viveu de 1866 a 1946. Pena que Verne e Wells provavelmente nunca leram Rosny, que nasceu em 1856 e morreu em 1940.

 

Mas o fato é que Rosny correu mais riscos e enfrentou os desafios de sua própria imaginação com mais "coragem" – e de forma mais desvairada – do que Verne e Wells. Afinal, enquanto os protagonistas de 20.000 Léguas Submarinas Viagem ao Centro da Terra (de Verne), bem como os heróis de A Máquina do Tempo e O Homem Invisível (de Wells), vão até os limites do mundo conhecido e os observam, sem jamais os penetrarem ou interagirem com eles, os personagens de Rosny mergulham em abismos insondáveis e veem, quando não enfrentam, seres inumanos nunca dantes imaginados.

Rosny flerta com o tempo fora das medidas, com os espaços ignotos, com vidas inorgânicas ou transumanas. Várias vezes mergulhou nos confins da pré-história –seu livro mais conhecido é A Guerra do Fogo (filme de sucesso em 1981) –mas também foi o primeiro a cunhar o termo "astronauta".

 

Nunca tinha ouvido falar em J.-H. Rosny. Apaixonei-me por ele agora que o livro A Morte da Terra caiu-me nas mãos, graças a decisão de editora Piu de lançá-lo no Brasil. Adorei saber que ele liderou um movimento contra Zola (que antes idolatrava), refutando a "falsidade do naturalismo" do autor de A Besta Humana. Adorei saber que aos 17 anos ele quis se mudar para o Canadá, para viver entre os indígenas das enregeladas florestas do Norte. E, por fim, adorei saber que chamava os humanos de "animais verticais". Um animal tolo que, após devastar as florestas, pulverizar as montanhas, conspurcar as águas e enegrecer os ares, pode ser riscado do mapa.

 

Sim, pois embora o livro se chame A Morte da Terra, talvez não seja o planeta que morra no fim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Coluna de Eduardo Bueno publicada em 26/07/2019 no jornal Zero Hora.

 

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