Revoada de ideias
As aventuras da Família Raton

Escrito por Jules Verne
Ilustrado por Catarina Bessell
Traduzido por Julia da Rosa Simões
Você tem em mãos um conto. Mais especificamente, um conto de fadas. Mas não um conto de fadas nos moldes tradicionais: histórias sem autoria conhecida, que circulavam oralmente entre camponeses durante a Idade Média e que foram coletadas e registradas por escrito muito tempo depois. Você tem em mãos um conto de fadas autoral, escrito por um dos grandes autores da literatura universal: Jules Verne.
A partir da estrutura simples dos contos de fadas, o autor vai muito além dela, apresentando personagens mais complexos, sátira social, reflexões filosóficas, menção de produções artísticas/históricas/culturais que podem ser exploradas de muitas formas em sala de aula. As aventuras da família Raton é uma história sobre família, amor, transformações. É uma história sobre a luta entre o bem e o mal com diversão e aventura. É uma história sobre se manter fiel a si e aos outros e que carrega em si várias histórias e muitos sentidos a serem desvendados.
Quanto à escrita, a obra também reproduz o tom das narrativas orais. Verne trabalha a linguagem para deixar marcas de oralidade no texto, que é escrito como se a voz de um contador de histórias o narrasse – contador que se dirige diretamente aos leitores desde o primeiro parágrafo da história: “Esses admiráveis roedores viveram aventuras tão extraordinárias, queridos leitores, que não posso deixar de contá-las a vocês” (p. 5). Os leitores são acolhidos em tom carinhoso. A presença deles é inserida no texto, fato que os aproxima ainda mais da história. O escritor precisa que os leitores preencham os sentidos do que está sendo narrado e os convida para lerem/ouvirem a história não de longe, mas como se ocupassem um lugar de observação bem próximo ao que está acontecendo. Pelo tom de oralidade e por todos os chamados que faz ao leitor, aproximando-o da história narrada, o livro também é perfeito para ser lido em voz alta, em uma leitura compartilhada.
As ilustrações e o moderno projeto gráfico ajudam a deixar o livro ainda mais atraente. Nelas, os personagens são apresentados em preto, branco e cinza, quase silhuetados, com interferências de riscos e poucos detalhamentos. As ilustrações ampliam as possibilidades de leitura do texto. Graças a isso, o leitor pode desfrutar de uma leitura multissemiótica, ou seja, uma leitura ( ou muitas) além da linguagem verbal.
Selecionar uma obra de qualidade é fundamental para o êxito do trabalho com a leitura. Escolher As aventuras da família Raton, de Jules Verne, é oferecer para as crianças a possibilidade de conhecer um autor de clássicos da literatura e, quem sabe, gerar nelas a curiosidade sobre as demais obras escritas por ele. É oferecer a elas o contato com um livro profundo e plural em significados. Para preencher os seus sentidos, elas vão ter que acessar suas vivências, suas leituras anteriores, seu conhecimento a respeito de si e do mundo. Cada acesso que fazemos a nossos sentimentos e experiências é potencialmente transformador.

Durante a leitura
Leia com intencionalidade. Sua intenção deve ser proporcionar o encantamento pela literatura, criando um clima afetivo que associe o momento da leitura com um momento bom, com um momento de troca entre você e a criança ou grupo de crianças.
É importante que você esteja atento tanto ao ritmo e à sonoridade do texto, quanto às pausas realizadas para ressaltar determinadas passagens, fazer comentários e perguntas sobre o que foi lido e acolher as observações ou reações.
Ao longo da leitura, não esqueça de fazer perguntas que levem à reflexão sobre as características psíquicas dos personagens e dinâmica das relações entre eles.
Ao realizar a leitura de um texto mais longo, utilize os finais de capítulo como pontos de corte para continuar a leitura em outro momento. Eles são elaborados de modo a deixar o leitor curioso com o que vai ser lido a seguir.
Antes de retomar a leitura de um novo capítulo, estimule a criança ou o grupo de crianças a relembrar oralmente os acontecimentos ocorridos na leitura anterior.
Mostre as páginas com calma para que a criança relacione as ilustrações com o que foi lido. Mostre que as silhuetas das personagens revelam muito sobre elas. Rataniel, por exemplo, não possui rosto nem expressões na ilustração, mas o topete no cabelo, suas roupas e sua postura (p. 10) demonstram que é bonito e galante.
Proponha conversas depois de cada capítulo lido. Cada uma das crianças vai ser impactada de forma única pela história narrada porque cada uma delas vai estabelecer pontos de identificação com sua vida. Se a leitura for feita para uma turma de crianças, esse momento de troca oportuniza que as crianças aprendam a se expressar, interagir e conhecer o ponto de vista de cada colega, fortalecendo o grupo e dando mais segurança para assumirem riscos próprios do processo de aprendizagem.
Depois da leitura
Você pode propor que a criança ou o grupo de crianças realize um reconto da história. Para isso, será preciso que retomem os principais acontecimentos, organizem cronologicamente os fatos contados, organizem a história dentro de uma estrutura de começo, meio e fim. Ver a forma como a criança ou as crianças recontam vai possibilitar observar quais momentos da história foram mais marcantes – pelas partes que elas vão enfatizar na narrativa; perceber a compreensão global que tiveram da história; estimular a oralidade e a escuta. Se o reconto for coletivo, vá costurando as ideias trazidas pelo grupo.
Você pode sugerir que a criança ou o grupo de crianças transforme a história – ou algum capítulo dela em uma HQ.
Você pode sugerir que a criança ou as crianças brinquem a partir da ideia das metamorfoses. Peça que pensem em que bicho gostariam de ser transformadas e qual animal não gostariam de ser. Estimule que representem esses animais através de desenhos inspirados nas ilustrações da obra. Estimule que falem sobre suas escolhas.
Ainda brincando com a ideia das metamorfoses, estimule a criação de um bicho que seja proveniente de uma mistura de outros dois animais. A criança pode descrever por escrito ou realizar um desenho, colagem, pintura – que represente de forma criativa sua invenção. Se a atividade for realizada com uma turma de crianças idealize um momento para que compartilhem suas criações com o grupo.
Para complementar
reconto, HQ, conto de fadas, Ensino Fundamental - anos finais, leitor fluente



