PATACHU

 

            Eu conheço um garotinho. Ele se chama Patachu. Esse não é seu nome de verdade, como você pode imaginar. Numa manhã, quando a velha cozinheira do sítio preparava bolinhos de creme com uma massa francesa conhecida como pâte à choux, o menino se esgueirou pela cozinha, devorou metade da massa quente e saiu correndo na ponta dos pés, depois de puxar o rabo do gato.

            — Minha massa! — gritou a cozinheira.

O comilão foi capturado.

— Se fizer isso de novo — disseram para ele no tom mais severo do mundo —, a massa vai inchar dentro da sua barriga. Você se transformará numa grande pâte à choux e será devorado por todos nós.

Ele ficou muito preocupado. De vez em quando, olhava-se no espelho para ter certeza de que não estava inchando. Por fim, perguntou à mãe:

— Não virei esse tal de patachu, virei?

Estava quase chorando. Foi repreendido, mas também consolado.

Passou a ser chamado de Patachu.

 

Patachu chamava todo mundo de tu. “O certo é chamar os mais velhos de senhor.” Ouviu isso umas cem vezes.

Sou tio de Patachu, meu nome é Felipe e trabalho como jornalista. Certa vez, fui passar oito dias no sítio.

— O seu chapéu é ponsenhordo… — disse Patachu.

— É um chapéu tirolês — expliquei.

— Sim, mas é um chapéu ponsenhordo.

— Ponsenhordo? O que é isso?

— É que mamãe me disse para não usar o tu… Se eu pudesse, diria que seu chapéu é pon-tu-do. Mas ela me proibiu. Então tenho que dizer que o chapéu é pon-senhor-do.

 

— Eu queria uma espingarda como a do tio — pediu Patachu. — Para caçar leões.

— Mas não temos leões por aqui — respondeu sua mãe.

— Quem sabe um dia…

Compramos um pequeno arco e algumas flechas para ele. Foi preciso proibir que perseguisse as galinhas. Ele queria acertar em todas.

 

Saí para caçar nos campos e encostas. Voltei com uma lebre que foi colocada para assar num espeto giratório. A cozinheira subiu à nascente para buscar água com uma vasilha. A lebre girava e Patachu olhava para ela. “É uma lebre”, ele pensou; “é uma caça…” Rapidamente, pegou o arco e atirou todas as flechas que tinha no animal rodopiante. Uma delas atravessou a lebre e sua ponta tocou as brasas. A lebre parou de girar. Todas as flechas começaram a queimar como gravetos. Patachu saiu correndo.

— Patachu, você ainda vai me matar do coração. Não tem vergonha? As flechas ficaram carbonizadas e a lebre também.

— Moleque — sentenciei. — Olhe-se no espelho e verá uma cara de sem-vergonha. E pense nos benefícios de termos espelhos, que revelam as marcas de nossos erros e assim nos permitem corrigi-los. A raça humana é a única que tem espelhos; ela é a única que tem consciência. Você já pensou que o cordeiro e o coelho nunca viram a si mesmos e nunca o farão, que nunca chegarão a saber se têm olhos azuis ou pretos, o nariz aquilino ou arrebitado? Tire proveito desse favor que o destino lhe prestou.

Patachu passou a tarde com um espelhinho na mão, correndo atrás do galo no terreiro.

— Deixe o coitado em paz! — dizíamos a ele.

Mas Patachu gritava para o galo:

— Olhe-se no espelho! Você pode ganhar uma consciência!

No primeiro conto do livro O Pequeno Patachu, optamos por retirar sua parte final que aborda a caçada de animais. Apesar de sabermos que caçar era uma prática normal nos anos 1930, ela vai contra a filosofia da Editora Piu que é a de não maltratar os animais. Ao mesmo tempo, caso algum leitor deseje conhecer a história completa, aqui está ela: