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As narrativas que nos pertencem

  • Editora Piu
  • 18 de mai.
  • 3 min de leitura

por Katia Canton


Pintura do artista Antonio Peticov representando a lenda da Vitória-Régia.  A imagem apresenta o desenho com dois rostos esboçados, uma grande lua branca, planta vitória régia verde e flor rosa. Fundo azul escuro.

As imagens de mitos brasileiros, ilustradas pelo artista Antonio Peticov e narradas pelo escritor Eduardo Bueno, fazem parte de um repertório precioso, um repositório de memórias concebidas ao longo de anos e anos na cronologia da civilização. Mas, afinal, que histórias são essas?

Os contos maravilhosos, ou contos populares de magia, partilham a mesma gênese dos mitos e, por isso, ambos se cruzam em diversas versões do folclore brasileiro. “Maravilha”, de acordo com o dicionário, é um estado de deslumbramento, espanto e desconforto com o que é conhecido. Peticov desenha e pinta aquilo que nos maravilha e nos espanta como povo, retratando o que permanece como enigma e que, por isso mesmo, sobrevive na oralidade brasileira.

É interessante pontuar que esse projeto começou com a ideia do filho de Peticov, Pedro, que sugeriu que o pai se debruçasse sobre uma constelação de contos e personagens do nosso folclore. Inicialmente, Peticov achou que o universo das lendas estava distante de sua arte, mas, ao assistir à série brasileira Cidade invisível, que insere seres mitológicos no contexto urbano atual, ele se deu conta do que marca o cerne e o segredo dos contos de magia: tais narrativas são minhas, são suas, são de todos nós. As histórias nos pertencem porque somos formados por elas. Sabe-se hoje que as histórias do folclore se propagaram em voz alta, nas contações dos nossos remotos antepassados, durante as pausas das tantas jornadas, em meio a caçadas e colheitas, em volta das fogueiras e dentro das cavernas. Contos que surgiram para compensar as dores e os desafios da realidade concreta e também para tentar explicar o inexplicável.

Os povos originários brasileiros já possuíam uma rica herança de mitologias que sempre celebraram a natureza e os espíritos da floresta. Com a chegada dos portugueses e a imposição da lógica colonial, essas tradições foram sendo adaptadas e transformadas, sobretudo com a infiltração dos dogmas do catolicismo. Além disso, os africanos escravizados trouxeram consigo suas próprias divindades, que, ao se fundirem às tradições indígenas e europeias, deram origem a novas formas de expressão cultural.

Essa mistura de vozes e crenças é o que faz com que tenhamos um acervo de mitos e mistérios tão rico quanto a própria multiplicidade de etnias que ocuparam o Brasil.

São muitas as narrativas no nosso alfabeto folclorístico. No entanto, algumas delas sobreviveram com mais potência, passaram a ser populares, se tornaram parte ativa do idioma cultural. Até hoje, eles exercem um papel fundamental na vida das pessoas. O Saci Pererê, por exemplo, representa o aspecto lúdico, a necessidade de brincar e rir para levar a vida. Já o Boto, muito popular na região amazônica, funciona como um mecanismo simbólico importante para justificar situações de gravidez. Sem contar os mitos que trazem esperança, os que despertam atenção e cautela ou ainda os que valorizam o amor, o cuidado, a natureza.

Dentro desse arsenal de personagens fantásticas, mitos eternizados e contos singulares, fica a certeza de que essas histórias são e continuarão sendo fundamentais para a nossa existência como seres humanos.

São relatos que nos pertencem, heranças que devemos preservar, encantamentos que nos unem — e que seguirão vivos enquanto continuarmos a ter obras como esta.

Texto de Kátia Canton para o livro BRASIL ENCANTADO: MITOS E MISTÉRIOS DO NOSSO FOLCLORE, de Eduardo Bueno e Antônio Peticov.


Katia Canton é PhD em artes interdisciplinares pela Universidade de Nova York, com tese e livros sobre contos de fadas. É escritora, psicanalista, artista visual e professora de estética e história da arte na USP.

 
 
 

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