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  • Editora Piu

Xadalu e guaranis: diagramas de alteridade e trocas

Texto do crítico de arte Paulo Herkenhoff, publicado no site oficial de Xadalu Tupã Jekupé.


A situação das sociedades originais das Américas é a evidência fragorosa do fracasso do processo colonial. Em 500 anos de invasão, os povos autóctones conheceram a rapsódia invertida de um épico perverso onde ocorreram genocídios, escravização, guerras simbólicas, proselitismo de religiões cristãs, doenças novas, fome, extinção e dizimação, imperialismo linguístico, degradação cultural, diásporas, destruição do ambiente, usurpação de terras e outras riquezas, roubo de saberes, sob muita violência difusa. “Como essa história do contato entre os brancos e os povos antigos daqui desta parte do planeta tem se dado?”, indaga Ailton Krenak em seu blog. A arte de Xadalu não vai mudar o mundo, mas pode alterar nosso olhar sobre as coisas . Ao abraçar a causa dos guaranis, ele conforma um ethos para sua arte de agenciamento social.


Seu nome é Dione Martins. Xadalu vem de Shadaloo, do desenho Street Fighter. Na infância, ele e um amigo imaginaram criar a empresa Xadalu. Nas primeiras intervenções nas ruas, ele colocou o nome Xadalu no indiozinho que colava pelas paredes - passou a ser chamado de Xadalu, por ser um street fighter, um guerreiro das ruas como gari e artista.


Embora seja trineto de guaranis por conta de Adalva, sua triavó materna, Xadalu não reivindica a identidade guarani. Por puro pudor, alega não falar guarani e considera a língua um fator constitutivo da identidade cultural. No Amapá, Pituku Waiãpi fazia perguntas na língua waiãpi como parte do processo de pintar seus quadros - “aí eles me respondem em waiãpi, onde é para pintar, o que falta.” Xadalu se tem por mestiço, pois sua mãe Maria Catarina Martins da Luz é negra; daí não ousar falar em nome dos guaranis, mas, através de sua arte reivindicar a visibilidade da etnia. Após entender sua própria identidade, formou a identificação irmanada com os guaranis. Diz ele, “minha vó Dalva [Dalva Oliveira da Luz] era um fragmento indígena que ainda resistia vivendo na beira do rio, morava numa casa de barro e capim, vivia da pesca.” A fala de Xadalu é moldada pela linhagem feminina. “Elas me mostraram o quanto as fortalezas podem ser vulneráveis e ao mesmo tempo inquebrantáveis, pois tudo vai depender da circunstância e do ponto de vista em que a vida nos coloca,” afirma. Xadalu compôs o êxodo rural e superou a condição de lumpen, mas não é um artista do miserabilismo. A partir da vivência, ele proclama o “matriarcado de Pindorama”, que Oswald de Andrade consagrou no Manifesto Antropófago (1928). Em Alegrete, onde nasceu em 1985, nunca havia pensado nos guaranis “já que não existe aldeia ao redor de Alegrete, foram todas exterminadas, mas sabemos que depois da guerra guaranítica houve refugiados guaranis que foram morar na beira do rio Ibirapuã.”


Em 1996, dona Maria e dona Dalva, avó e mãe de Xadalu, tomaram uma decisão em 1996. “Viemos tentar uma nova vida em Porto Alegre e por falta de emprego e péssimas condições financeiras fomos parar num periferia, a Vila do Funil,” informa ele . Até 1999, ele e sua mãe juntavam latinhas para sobrevivência. Depois, foi gari. Em 2003, Xadalu criou uma oficina de serigrafia na Vila do Funil. A mãe e a avó sempre estimularam Dione a estudar malgrado a vida precária. Lembrando-se da Serigrafia Gaúcha, seu primeiro emprego, diz que “nem imaginava o que viria, só sabia que lá eles pagavam almoço e passagem.”


Numa virada de ano, o street fighter Xadalu colou quase 10.000 adesivos pela cidade.

É um caso raro de uma artista mestiço que retoma questões estratégicas de sua integração numa metrópole. Rege-se por uma intencionalidade precisa: tornar os guaranis visíveis. “Em pouco tempo já estava íntimo das ruas e mal sabia que nunca mais iria conseguir viver sem elas. Essa mistura de periferia com asfalto (ruas) tornou empírico meu DNA marginal. Tanto a periferia quanto a rua, sinto elas como a extensão do meu corpo, fazem parte de mim.” Hoje Xadalu tem um círculo de amigos como Toniolo, o mais antigo pixador do Brasil, e colabora com Smok e Dick da grife Maiorais.


Xadalu trata de deslocamentos territoriais, de sua saída do interior para a capital até o reconhecimento da diáspora dos guaranis. Sua metáfora, os primeiros trabalhos na rua enquanto catador de latinhas e gari, num percurso dos desterrados. Xadalu produz uma obra que quanto mais dispersada, mais eficiente é sua comunicação. Ele conheceu o extremo da margem – “as vassouradas nas ruas de Porto Alegre, no primeiro emprego como gari, me mostraram um mundo de preconceito, desigual e desleal, mas tudo isso foi bom para fortalecer meu aprendizado.” A utopia tem a substância do humanismo no projeto de Xadalu. O humanismo, por sua inatualidade, possibilita-lhe convocar o conceito em face da radicalidade de situações brutais do “inumano no humano”, nos termos da análise de Emmanuel Levinas de Humanisme de l’autre homme.


No oposto do guarani italianizado de Il Guarany de Carlos Gomes, Xadalu age por contaminações culturais do homem nativo concreto, numa interculturalidade atravessada por trocas e resistência à violência. Ele sabe que a diáspora guarani foi e é imensa. “O Ibirapuitã, rio que banhava minha cidade,” conta Xadalu, “desemboca no Ibicuí que desemboca no rio Uruguai (rio onde teve muitos conflitos de guerras e extermínios indígenas; até hoje causa incômodo aos guaranis pois é uma fronteira onde eles tem que pedir para passar para ver seus parentes que moram na argentina).”


Disseram que meu bicho pode ser o Jaguaretê (onça), diz Xadalu. Toda onça é, portanto, um autorretrato. Seus guaches exploram temperaturas quentes sob a harmonização estridente das cores como acontece com pinturas de alguns artistas amazônicos como diversos os Ashaninkas e os Huni Kuin na região do Acre e Carmezia Emiliano entre os Macuxis em Roraima. Os bichos de Xadalu têm um desenho sinuoso, próximo de certa cultura gráfica Pop articulado aos animais na madeira ?? dos guaranis. Tudo nele remete a uma visão periférica da cultura visual - a rua, o subúrbio, as aldeias guaranis.


A situação dos territórios guaranis demarcados gera penúria por sua diminutez e dificuldades de sobrevivência digna. A presença de guaranis nos espaços públicos de Porto Alegre é alvo de hostilidades de alguns comerciantes que acham que “os índios estragam o ambiente”. Xadalu produziu um cartaz por volta de 2005 com a inscrição ÁREA INDÍGENA, em verde e amarelo. Houve uma enorme reação. Os guaranis se regozijaram e entenderam que era um espaço para seu artesanato; os comerciantes sentiram-se ameaçados. Um cacique pediu a Xadalu que espalhasse pelo centro. Numa noite, Xadalu colou 1000 deles!. ÁREA INDÍGENA é um dispositivo anti-desterritoriação. “No dia em que não houver lugar para o índio no mundo, não haverá para ninguém,” diz Ailton Krenak. Xadalu reivindica o reconhecimento das terras guaranis, a reterritorialização das aldeias e o reconhecimento simbólico da Tekoha.


Para entender Xadalu examine-se a etimologia do termo solidariedade - do latim solidus, inteiro, consistente. Nele, solidariedade é a responsabilidade recíproca num meio social, de pessoas que criam relações de trocas simbólicas e sob vínculos estéticos e éticos, remuneradas de modo justo. Não é salário, mas colaboração. A esta arte chamo de diagramas de sociabilidade.


Cura e equilíbrio estavam na arte terapia de Nise da Silveira e Osório Cesar. Lygia Clark dissolveu a arte num modelo terapêutico como a “estruturação do self” no espaço pré-verbal.


Escuta Alguns artistas abrem espaços de escuta para segmentos da sociedade: Dias & Riedweg com menores de rua, Walda Marques com vendedoras de cheiro do Pará, Rosana Palazyan (No lugar do Outro), Rivane Neuenschwander e Xadalu. O vídeo Ymá Nhandehetama (Antigamente fomos muitos) de Armando Queiroz é um colóquio sobre as situação das populações autóctones hoje com Almires Martins Guarani, que defendeu uma tese no Pará sobre direito indígena guarani.


Dar voz. Estratégia de Vídeo nas aldeias do antropólogo Vincent Carelli que propicia meios tecnológicos para a ação simbólica aos indivíduos.


O artista provedor não suga a mais valia simbólica e material do da experiência de vida do Outro, mas oferece produção de renda: Geraldo de Barros, Celeida Tostes, Alexandre Sequeira, Bené Fonteles, Eduardo Frota e Igor Vidor.


Tornar visível. Hélio Oiticica, Lygia Pape, Cildo Meireles, Sebastião Salgado e Paulo Nazareth trazem a luz dramas da existência. Xadalu produziu retratos de cinco crianças, mulheres e homens guaranis que portam uma pequena escultura do animal com que se identificam: Esses Seres invisíveis, são retratos-emblemas de subjetividades, como a de Daniel Ortega que porta uma coruja, que ombreiam com a série Marcados para viver de Claudia Andujar dos Ianomamis. Porque os trabalhadores guaranis passam por impercebíveis nas ruas de Porto Alegre, Xadalu impremir seus retratos sobre chapas de raio X, em forma de negatoscópio.


Advogar pela causa das sociedades autóctones. Nos anos 60, expande-se a consciência do genocídio dos povos da floresta praticado impunemente pela expansão territorial do capitalismo sobre seus territórios durante a ditadura de 64. As grandes forças de denúncia foram os antropólogos e indianistas, as universidades, a imprensa (foto-jornalistas, como Claudia Andujar junto aos Ianomâmis), a Igreja Católica, e os artistas (Cildo Meireles e Claudia Andujar).


Contra a mais valia simbólica Um processo de agenciamento do capital simbólico coletivo. Paula Trope (Meninos do Morrinho) é exemplo da solução equânime para o problema da mais valia simbólica.


Muitos artistas contemporâneos não extraem a mais valia simbólica e material do discurso calcado da experiência de vida do Outro. Ao contrário, incorporam a colaboração autoral, praticam a escuta social e provêem algum retorno ou remuneração. Xadalu substituiu a alienação pela constituição do Outro em sujeito moral e econômico, individual ou coletivamente. Entre os diagramas de alteridade de Xadalu estão: Cursos profissionalizantes. Ensino de serigrafia nas aldeias Tekoa Koenju, Tekoa Pindó Mirim e Tamanduá para jovens usarem a figura do índiozinho Xadalu na edição de camisetas para venda.


Banheiro. Não havia banheiro em Pindo Poty, a aldeia mais pobre de Porto Alegre, em diálogo com o cacique, Xadalu constrói um.


Reflorestamento. Preza, marca de armações de óculos, criou um modelo com seu indiozinho. Xadalu usou seus honorários em Pindo Poty. Como lá não há artesanato porque a mata foi devastada, ele propôs o plantio de Kurupy para produzir madeira para os artesãos no futuro (cerca de 300 mudas). “O alinhamento com as aldeias do Rio Grande do Sul foi inevitável,” revela um Xadalu luminoso, “me sinto como o jabuti, o mensageiro que leva e traz a informação.”


Xadalu não fica à espera por mudanças na sociedade, mas busca agenciar sua potência para agir na escala individual - não se move por impotência; reconhece a pequena medida de suas possibilidades, sem submergir à onipotência. Seus riscos e dúvidas movem sua pulsão de vida no contexto de um contrato social solidário da arte.

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